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Eloísa Faria Mesquita: "No Brasil, o preconceito (em relação ao gênero) é disfarçado"

Em uma entrevista marcada pela precisão, a diretora de Operações Comerciais da BigTires Pneus aborda o período econômico vivido pelo Brasil, burocracia e questão de gêneros


 

O papo preciso, com a diretora de Operações Comerciais da BigTires Pneus, registrou algo pouco habitual no cotidiano de Eloísa Faria Mesquita: uma sala com cadeiras ocupadas apenas por mulheres.

Com MBA em Gestão de Mercado pela ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing), a executiva iniciou a carreira no comércio. Dinâmica e disciplinada, obteve ascensão profissional e, hoje, é responsável por todo processo operacional, desde a compra, venda até a entrega ao cliente.

Apesar de naquele momento ser da área de compras, era preciso entender o processo como um todo, conhecer a necessidade do cliente e criar alternativas para satisfazê-lo, pois é preciso resolver problemas em tempo real. Foi aí que ganhei know-how tanto para lidar com pessoas quanto para dar dinamismo ao meu trabalho e enxergar além do que minha função pedia”, destaca a profissional que chegou ao Grupo BigTigres, especializado na venda de pneus pesados para os segmentos agrícola, mineração, infraestrutura, portuário e outros, sem experiência no mundo corporativo.

Por pouco mais de 20 minutos, com firmeza, a executiva discorreu sobre sua trajetória profissional,

abordou a burocracia do País e falou sobre questão de gênero. Na conversa, também, foi tratado o atual momento econômico mundial.

Trago em minha carreira o seguinte lema: a crise gera oportunidades. E, quando falamos em aquisição, este é o período oportuno para a negociação de melhores condições, além de bons e grandes parceiros”, destaca.

Desafios de expansão

Em seu currículo, Eloísa Mesquita tem visitas a Coreia do Sul, China, Estados Unidos, México, Panamá, Taiwan e Vietnã. O objetivo? Ampliação de parcerias.

Mas, quando o assunto é a expansão, existem desafios a serem superados para que haja desenvolvimento em um período como o enfrentado pelo Brasil e outras localidades. Assim, entender como trabalhar a exportação de produtos essenciais em anos como 2015, é fundamental

Convivemos com a alta do Dólar, que dificulta (novas parcerias). Porém, independentemente de crise, o principal desafio é fazer o fornecedor entender a cultura e as necessidades do Brasil, como o trâmite tributário, por exemplo, uma vez que em outros lugares há menos burocracia”, pontua a executiva.

Segundo ela, a crise é o período ideal para novas oportunidades. “Como vivemos uma crise mundial, o momento é favorável para parcerias. A China, tem passado por dificuldades e diante disso, 'vender' novas propostas se tornou mais fácil”, destaca Eloísa Mesquita ao pontuar que: “O grande desafio está em apresentar os resultados que o fornecedor necessita”, frisa.

Burocracia x Desenvolvimento

Há tempos, ouvimos que o Brasil é um dos locais mais burocráticos do Globo. “Costumamos brincar que ser bem-sucedido nos Estados Unidos, é fácil. Já ter sucesso no Brasil, com diferenças tributárias e burocráticas entre os próprios Estados, é trabalhoso”, observa a diretora.

Uma pesquisa da CNI (Confederação Nacional da Indústria), realizada com 2002 pessoas em 142 cidades, em parceria com o Ibope, aponta que 77% dos brasileiros, têm a mesma percepção de Eloísa Mesquita. De acordo com os dados, os entrevistados acreditam que o País é muito burocrático ou burocrático.

Quando falamos em importação, precisamos estudar a viabilidade de aquisição e analisar as maneiras para a entrada dos produtos. Muitas vezes, é preciso dividir o País em regiões, estudar os Estados e fazer as compras de acordo com o projeto. É necessário um estudo tributário e de logística, para que não se pague um preço muito alto”, explica.

Os números mostram que 74% concordam total ou parcialmente que o excesso de burocracia desestimula os negócios, incentiva a corrupção e a informalidade e faz o governo a gastar mais do que o necessário. A maioria crê que o excesso de burocracia é uma das principais dificuldades para o crescimento da economia brasileira.

Fora a tributação, logística é outro ponto fundamental para o desenvolvimento econômico. “A aquisição está ligada à logística. Todavia, transporte ainda é um assunto difícil. Dependemos quase que exclusivamente da malha rodoviária e as estradas, infelizmente, estão em condições precárias. A linha ferroviária, é um sonho. E por isso, exige muita análise para garantir a eficácia do trabalho. Desta forma, a empresa se destaca quando possui saídas para burlar o maior número de problemas possíveis”, relata.

Questão de gênero

Bem articulada, a executiva é uma das poucas mulheres no segmento de pneus pesados. Líder, Eloísa raramente percebe preconceitos entre os companheiros de jornada. “No Brasil, o preconceito (em relação ao gênero) é disfarçado. Por isso, prefiro acreditar que existem falhas de conceito que precisam ser melhoradas”, dispara.

A discriminação de gênero que não sente em seu território, já foi percebida no exterior. “Durante uma negociação na China, um fornecedor chamou o diretor da empresa para conversar comigo. O superior entrou na sala, olhou para mim e disse: 'É ela?'. E, então, saiu da sala”, conta ao relatar, que já ouviu de um parceiro que precisa casar para ser “respeitada”.

Diante das situações, a diretora afirma que o maior obstáculo da executiva é a cobrança, tanto exterior quanto interior em relação ao papel da mulher na sociedade. “A sociedade cobra de nós o casamento, os filhos e outras posições para adquirirmos certo 'respeito'. É algo cultural, que começa na infância, com a preparação da vida em casa, com a família, para ser mãe...”, diz.

Ela ainda destaca que: “O desafio é priorizar sem se culpar. Em cada momento de nossa vida temos uma prioridade. Existirá um momento em que sua carreira será prioridade e isso não significa que sua família não seja importante. Em um outra fase, você direcionará sua carreira, sem torna-lá menos importante de forma que consiga priorizar sua família, se vencer esse desafio certamente será uma profissional mais completa e um ser humano mais feliz”, conclui.

Por Carla Caroline