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Executivas do lar e do mercado

Os desafios e dilemas para as mulheres de dupla jornada


Outro dia, zapeando pela internet, me deparei com uma troca de mensagens bem interessante. De um lado, uma mãe que trabalha fora reconhece o quão cansativa é a rotina de quem se dedica em tempo integral a cuidar dos filhos e da casa. Do outro, a dona de casa deixa claro que os esforços das mulheres que batalham no mercado de trabalho são outra forma de demonstração de amor à prole e imagina o quanto deve ser difícil se afastar dos pequenos todos os dias.

Conversando sobre o assunto com uma amiga, fiquei surpreso com o tamanho do problema que voltar ou não a trabalhar representa para as mamães. Gente, ao que tudo indica existe uma guerra não declarada entre as mulheres que resolvem ficar em casa para cuidar dos filhos e aquelas que não deixam a carreira para lá por causa da maternidade. Os dois grupos se achando superior ao outro. O primeiro por colocar a criação das crianças em primeiro plano, o segundo por conseguir equilibrar as duas jornadas sem descer dos saltos finérrimos de seus sapatos de grife. Só eu achei essa disputa a coisa mais sem sentido do universo? Espero que não.

Minhas caras, esse é o tipo de contenda da qual todo mundo sai perdendo. Porque coloca em lados opostos pessoas que estão, basicamente, na mesma situação: mulheres tentando equilibrar desejos e anseios particulares com a pressão social que massacra todas vocês cotidianamente.  Gente, já tem neguinho demais dizendo como vocês devem falar, quais roupas devem vestir ou como vocês devem amar. Não há razão para aumentar essa lista de fiscais em função de um campeonato sem sentido para decidir quem é a melhor mãe. Sério.

No passado tudo era mais simples. O homem trabalhava fora e trazia a grana. A mulher cuidava da casa e dos filhos. Todos viviam felizes para sempre nessa história cujo roteiro já havia sido escrito desde sempre e sobre o qual não era permitido levantar dúvidas ou propor alternativas. O tempo passou e mudou tudo. Onde antes existia só um caminho, hoje a estrada se divide em uma infinidade de bifurcações e vielas elevando o número de possibilidades ao infinito.

Imaginar que a maternidade é a razão primeira da felicidade das mulheres e que toda a existência delas gira em torno do nascimento e criação dos filhos é ignorar todo o potencial de realização feminino e a complexidade emocional feminina. Se eu fico feliz quando recebo reconhecimento profissional, não há razão para imaginar que com as minhas colegas de trabalho seja diferente. Ao mesmo tempo, é uma besteira sem tamanho acreditar que as mães que decidem dar um tempo na carreira para se dedicar aos filhos estão jogando fora décadas de luta por espaço no mercado de trabalho e condições mais dignas e igualitárias nas empresas. Isso se considerarmos os poucos casos em que a moça tem a chance de escolher qual caminho seguir. Porque na maioria esmagadora dos casos a mamãe tem que voltar ao trabalho ao final da licença maternidade porque precisa do salário para complementar a renda da família.

O que eu achei mais bacana na troca de mensagens entre as mães que eu mencionei no começo deste texto foi o respeito e admiração que elas demonstraram uma pela outra. Sem disputa. Sem competição. Ambas reconhecendo as agruras e sacrifícios feitos em nome da felicidade e bem-estar dos pequenos. Eu penso que seja essa capacidade de colocar o filho em primeiro lugar que caracteriza a maternidade. Não a quantidade de tempo que você passa com a criança.

Então, não importa se você é executiva de sucesso ou dona de casa devotada. Se o que mais importa é a felicidade do seu filho, tenho certeza que você está fazendo um bom trabalho. O resto é culpa que os fiscais da vida alheia inventaram para tirar a alegria e a leveza da sua vida.  

Arthur Chioramital

Jornalista, com vivência internacional, em Londres, colunista do Portal Mulher Executiva e do Yahoo! Mulher.