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Executivas no Esporte: "O sucesso na bike, sem dúvida, me dá um norte como profissional"

Viviane Favery Costa é gerente de marketing da Caçula de Pneus e a principal ultramaratonista de mountain bike do Brasil


 

 

Viviane Favery Costa em uma de suas contas nas redes sociais afirma ser: “Publicitária, inquieta e intrinsecamente encantada pela sociedade humana. Através da bike, busco desenvolver meu potencial e estender meus limites. Tudo que eu faço tem que ter significado e de alguma forma melhorar, envolver, desenvolver, crescer, somar... Muitas vezes não basta pedalar. Tenho que estar aqui, buscando ressonância e trocando 'figurinhas'”. É, ela inquieta. Tanto que aos 29 anos, a gerente de marketing da Caçula de Pneus é a principal ultramaratonista de mountain bike do Brasil.

Amante da prática esporte desde muito nova, na adolescência cogitou a possibilidade de cursar a faculdade de educação física. No entanto, ela optou pelo curso de Propaganda e Marketing da FAAP (Fundação Armando Alvares Penteado). “Sempre tive paixão por esportes. Mas, tinha aquela pressão dos pais para fazer primeiro uma faculdade de administração, que me preparasse para empreender. Como nunca me dei bem com finanças/números e sempre gostei de comunicação, acabei indo para o lado do marketing”, frisa.

Embaixadora da Specialized Women Brasil e atleta Specialized Factory Team, Vivi, como é conhecida, leva a disciplina adquirida no esporte para dentro do escritório.

“Quando entro em uma prova, me coloco 100% vulnerável a tudo o que ela pode me trazer, coisas boas e coisas ruins. Fico exposta. E sigo disposta a lidar com o desconhecido, aprender, amadurecer.... Eu pratico isso no esporte, com disciplina. A prática traz confiança. E quando estou com o 'chapéu' de executiva, vejo isso se resumir em comprometimento”, conta.

Em um agradável papo com o Portal Mulher Executiva, ela destaca a importância do esporte para a sua vida e conta suas últimas conquistas, como o título de Campeã Brasileira 2015, por exemplo. Confira...

Portal Mulher Executiva - Como a Viviane se tornou atleta profissional?

Viviane Favery Costa - Em abril deste ano fui para os Estados Unidos para uma prova de cinco dias na Carolina do Norte (Pisgah Stage Race). Lá, me vi disputando com atletas profissionais dos EUA e do Canadá.

Conquistei o 2º lugar em uma das etapas. Esse resultado expressivo matou todas as dúvidas que tinha em relação ao meu possível amadorismo, caiu a ficha: "eu treino e me preparo com a seriedade de uma atleta profissional, por isso estou conquistando esses resultados!".

Além disso, houve outra ocorrência curiosa e engraçada nessa viagem: conheci uma atleta que se tornou uma grande amiga, a Ally Stacher. Passamos dez dias juntas e em determinado momento, quando já tínhamos certa intimidade, ela me cortou, me deu uma bronca e me corrigiu: "Vivi, você não é amadora, você é uma atleta profissional!".

Depois disso, percebi que seria até um desrespeito aos outros me colocar como amadora. Só que como não tinha referências no Brasil do que era ser profissional, simplesmente não sabia do meu potencial! Quando voltei ao meu País, me federei e coloquei o campeonato Brasileiro de Mountain Bike Cross Country Marathon 2015 no calendário, que aconteceria dia 29 de Agosto. Como já tinha a Leadville Trail 100 MTB no dia 15 do mesmo mês, como foco (prova de 170km na cidade de Leadville, no Colorado), a ida para o Campeonato Brasileiro estava sujeita ao meu cansaço e, em um primeiro momento, seria apenas como preparação para o ano que vem.

Só comecei a acreditar que realmente tinha chances de resultados grandiosos quando fui pro Campeonato Brasileiro de Mountain Bike Cross Country Olímpico e me surpreendi com a 4ª colocação. Essa não é minha especialidade. Sempre foquei nas provas longas, de maratona. Portanto, quando fui paro Brasileiro de "XCO", minha expectativa era de me contentar com um top 7.

Imediatamente mandei um e-mail à organização da Leadville Trail 100 MTB solicitando que me encaixassem no pelotão de Elite. A solicitação foi aceita e larguei junto com meus ídolos no esporte (Annika Langvard, Cristoph Sauser e Ally Stacher). Terminei em 5º lugar na geral feminina e 1ª colocada na categoria 20-29 anos.

Voltei ao Brasil e fui para o Campeonato Brasileiro de MTB "XCM" como uma das favoritas, e consegui superar a campeã de 2014. Então, essa é a história de como me tornei atleta profissional.

 

Portal ME - Quais foram os desafios enfrentados para encaixar a atividade na rotina?

Viviane Favery Costa - É um desafio diário, pois sempre preciso adaptar meus treinos por necessitar mais descanso ou por alguma prioridade no trabalho. Mas, o mais difícil tem sido me encaixar e conquistar a confiança da equipe.

Apesar de ter deixado claro, quando fui contratada, que era atleta e que isso não iria mudar, só agora, com resultados em nível internacional que sinto a aceitação. É engraçado, pois talvez você possa imaginar que agora que me profissionalizei e sou campeã Brasileira, vou "tirar o pé" do trabalho, mas é o contrário. Parece que agora que as coisas estão começando a se encaixar, estou sendo mais aceita e amadurecendo como gestora. É incrível como um lado puxa o outro. O sucesso na bike, sem dúvida, me dá um norte como profissional.

 

Portal ME - Fale-nos sobre a disciplina para os campeonatos

Viviane Favery Costa – Treino seis vezes por semana. Já fui mais engessada em relação ao que comer e hoje, para sustentar a minha rotina, preciso ser flexível e prática, comer em restaurantes e etc. Mesmo assim, um valor que não abro mão é de cuidar da minha saúde fazendo boas refeições e priorizando meu descanso sempre que possível. Abro mão de eventos sociais para poder simplesmente dormir, algo que vale mais do que ouro na vida de um atleta. A minha rotina atual não é ideal para um atleta de alto rendimento, mas vou levá-la assim o máximo possível.

 

Portal ME - Como foi a conquista do Brasileiro?

Viviane Favery Costa – Um dos pedais (termo usado pelos atletas da modalidade para definir as provas/treinos) mais doloridos que já fiz! Larguei na prova da maneira mais discreta possível, para entender como estava em relação as adversárias e entre os primeiros 5km (quilômetros) vi um momento oportuno para um ataque, que deu certo. Eu e a Tânia (campeã 2014) chegamos sozinhas na primeira serra. Lá ela colocou um passo muito forte e abriu uma grande distância. Nesse momento pensei que seria a hora de defender um 2º lugar.Mas, para a minha surpresa, depois da serra, em um trecho plano, a avistei e vi que seria possível alcançá-la.

Andamos juntas por muito tempo, revezando quem ficava na frente. Isso aconteceu até a outra serra, onde ela abriu de novo, mas não muito. Novamente, consegui alcançá-la em um trecho plano, e, quando entramos em um trecho técnico de singletrack, fiz um ataque para tentar abrir distância.

Depois de um tempo, quando pude olhar pra trás, vi que tinha conseguido me distanciar e segui firme até a linha de chegada. Ao mesmo tempo que eu queria muito ganhar a prova, não sabia se seria possível e tentava focar todas as minhas energias em simplesmente dar o meu melhor. Durante esse período, para me motivar, tentava imaginar como seria cruzar a linha de chegada em primeiro, se eu gritaria, ergueria os braços, levantaria a bike.... mas quando isso aconteceu, foi tão surreal que só consegui chorar. Fui tomada por um sentimento pleno de gratidão.

De lá pra cá as coisas mudaram, tomaram forma e todo esforço que fiz para chegar aqui, todos os eventos sociais que perdi, as horas de sono que não tive, o sofrimento em cima da bike fizeram mais sentido do que nunca. E, mais importante, fizeram sentido para os outros. Meus familiares e amigos que não compreendiam minha doação ao esporte, agora entendem e sentem orgulho!

 

Portal ME - De qual maneira o esporte influencia em sua vida profissional?

Viviane Favery Costa –Sou comprometida com os meus objetivos. Se o meu objetivo é ser uma boa executiva e crescer profissionalmente, farei de tudo para que isso aconteça. Minha maior fonte de inspiração para superar os desafios do trabalho é a forma como lido com eles na bike. Essa é a minha referência.

Na bike, quando estamos em um trecho crítico, de perigo e vulnerabilidade, temos que focar em sair dele. Parar para descansar não é uma opção. Na bicicleta, a humildade é sua maior aliada e te ajuda a ganhar a prova. Esses são alguns dos aprendizados que transfiro para o trabalho.

 

Portal ME - Qual a relação entre esporte, disciplina, confiança e a executiva que você é?

Viviane Favery Costa –Acho que é o compromisso. Quando entro em uma prova, me coloco 100% vulnerável a tudo o que ela pode me trazer, coisas boas e coisas ruins. Fico exposta. E sigo disposta a lidar com o desconhecido, aprender, amadurecer.... Eu pratico isso no esporte, com disciplina.

A prática me traz confiança. E quando estou com o "chapéu" de executiva, vejo isso se resumir em comprometimento.

 

Vivi, já tem metas para 2016. No próximo ano, os objetivos são o Campeonato Brasileiro de Cross Country Maratona, o Mundial de Cross Country Maratona, as Provas “chaves” para pontuação no ranking Brasileiro e , claro, uma Ultramaratona no exterior.

Fotos: Arquivo Pessoal

 

Por Carla Caroline