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Joyce Ribeiro: "Jamais deixaria de ter filho por conta do trabalho. Mas, tentei encontrar o melhor momento para exercer a maternidade"

Apresentadora do SBT, ela fala sobre racismo, da presença da mulher negra no telejornal, do lançamento de um livro sobre Chica da Silva e da chegada da segunda filha


 


 

Deixar de perceber Joyce Ribeiro, é missão quase impossível. Linda e com 1,83m de altura, a mãe da Maria Luiza (03), desfila a barriga de sete meses, à espera de Lorena.

Ouvimos as mulheres sobre conciliar a maternidade e o trabalho, e não temos dimensão da complexidade, na prática. A vida se transforma e sempre digo: 'nada de melhor vai acontecer na sua vida. Então, espere para ter filho quando puder curtir ao máximo'”, frisa.

Fora a ansiedade pelo nascimento do bebê, a ex-modelo, casada há nove anos com o engenheiro civil, Luciano Machado, tem uma vida para lá de agitada. Apresentadora de telejornal no SBT há dez anos, ela trabalha na finalização da nova fase do programa “Joyce Entrevista”, dividido em 13 episódios e que vai abordar o “Universo Mãe”.

Além das discussões voltadas à maternidade, que serão apresentadas na web, a jornalista, que apresenta aos domingos, a partir das 05h45, o “Jornal da Semana”, se prepara para o lançamento de um romance sobre a vida de Chica da Silva. Com lançamento marcado para dezembro, pela Editora Planeta, a publicação apresenta um outro olhar sobre a trajetória da ex-escrava que foi casada com um rico homem branco e que teve 13 filhos, em meados do século XVIII.

No escritório do esposo, na Avenida Paulista, em São Paulo, Joyce Ribeiro, em um bom papo fala ao Portal Mulher Executiva sobre maternidade, novos projetos, preconceito e a presença da mulher negra nos telejornais nacionais.

Mãe, por amor e opção

Joyce Ribeiro sempre desejou estar na televisão. Formada em jornalismo pela FIAM, ela é pós-graduada em jornalismo econômico e político pela PUC-SP. “A TV sempre me fascinou. Aos 14 anos, gostava de assistir aos telejornais, coisa que raros adolescentes faziam ou fazem. Olhava e dizia: 'se conseguir fazer algo parecido, profissionalmente, serei muito feliz'”, relata.

Quando falamos em determinação, vemos que saber o que e quando se quer algo, integra o cotidiano da profissional, que iniciou a carreira na TV LBV (canal pertencente à Legião da Boa Vontade), passou pela RIT TV, ganhou notoriedade nacional no “Fala Brasil” da Rede Record e que, desde 2005, está no SBT.

Aos 37 anos, ela espera por Lorena. Mas, para conciliar a vida profissional com a maternidade, ao lado do esposo, Joyce planejou as duas gestações. Só assim, para dar conta das muitas coisas que faz diariamente.

Dou palestras para jovens e digo: 'planejem. Não temos mais necessidades de ter filhos aos 15 anos'. Afinal, vivemos uma crise de gravidez na adolescência, na periferia e, principalmente, entre as mulheres negras”, conta, ao relatar que teve a primeira filha aos 33 anos.

Defensora da importância do planejamento pessoal e profissional, Joyce Ribeiro é taxativa: “quando há planejamento, as chances de dar certo são maiores. Por isso, adiar um pouco a maternidade foi fundamental. Não me arrependo e se tivesse que fazer, faria de novo. Jamais deixaria de ter filho por conta do trabalho. Mas, tentei encontrar o melhor momento para exercer a maternidade”, pontua.

Radiante, cheia de vida e ansiedade, a apresentadora curte cada etapa da barriga, que cresce a cada dia. “Quis muito e curti todas as fases. Quando tiver 90 anos, poderei dizer: 'escolhi e pedi a Deus para que elas (filhas) viessem'”, garante.

Mulher negra na televisão

Uma das poucas (e raras) negras a ocupar uma bancada de telejornal, a jornalista acredita, que mesmo diante das conquistas e do número de afrodescendentes em destaque, a televisão brasileira vai levar certo período para ser, de fato, o reflexo dos espectadores.

Sou otimista e vejo tudo o que conquistamos. Mas, a dificuldade de inserção (do negro) existe e é real. Podemos contar uma (jornalista negra) por canal e olhe lá, pois existem os que não têm tais colaboradores”, categoriza e lembra que “se isso é o reflexo da sociedade, nossa televisão representa a Suécia?”, ironiza.

Ela reconhece os avanços em prol da mulher negra, tanto nos jornais quanto nas telenovelas, comerciais, entre outros, porém reforça a necessidade de mudança. “Temos de comemorar as conquistas. Porém, ainda estamos nos primeiros passos. É minha luta eterna e das próximas gerações. Estamos começando”, reforça.

Preconceito? Aqui não

Quando o assunto é preconceito, ela é categórica: “é preciso punir”. Como aconteceu com a jornalista da Rede Globo, Maria Júlia Coutinho, há certo tempo Joyce Ribeiro, também, foi vítima de racismo nas redes sociais. Na época, a profissional foi à delegacia e denunciou o crime de injúria racial.

Muitas pessoas encaram a internet e as redes sociais como uma máscara. Lá, elas se protegem e colocam para fora o que têm de pior, sem medo da punição. Esses seres precisam aprender, sendo punidos, que devem ter uma conduta de civilidade e de respeito, mínimo, ao próximo”, dispara.

O ódio gratuito, segundo a jornalista, é o principal causador das ofensas, sejam elas virtuais ou não. E, a única maneira de reduzir os incidentes, seria por meio de uma legislação atuante e com leis eficazes.“É difícil convencer uma pessoa tomada pelo ódio, no discurso. Ela não compreende. É preciso punir. Só assim , aprenderemos a conviver em sociedade”, ressalta.

Que venha Chica da Silva

A fase da gravidez foi uma das mais produtivas da minha vida. Trabalhei muito e finalizei meu primeiro livro, que será lançado em dezembro, pela Editora Planeta”, conta a autora do romance sobre Chica da Silva.

A publicação, ainda, não tem título definido. Mas, algo é certo, vamos conhecer uma mulher diferente das que foram apresentadas pelo cinema, pela literatura e, principalmente, pela teledramaturgia. “Muito se fala da personagem, mas ela teve um papel social importante e é o que tentamos resgatar”, enfatiza.

Por mais de 12 meses e com o apoio de uma pesquisadora profissional, Joyce fez estudos para mostrar, de forma leve, a paixão de Chica da Silva com o filho de portugueses, João Fernandes de Oliveira.

Ainda, as mulheres são muito taxadas pela sexualidade. E, por meio de pesquisas, resgatamos o papel social dessa mulher (Chica da Silva) que teve tantas posses, se casou com um homem branco e teve 13 filhos. Ela não foi uma aventureira, como mostram”, diz.

Após a chegada da publicação às livrarias, os planos de Joyce Ribeiro não param. Com certeza, a profissional vai nos presentear com boas coisas. “Adoro falar sobre cultura e amo cinema. Tenho em mente estudar mais o assunto e fazer algo para abordar o tema”, conclui.

 

Foto: Roberto Nemanis/SBT

 

Por Carla Caroline