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Mulheres: da panela à pressão

Crescimento pessoal e profissional


"Atiramos o passado ao abismo, mas não nos inclinamos para ver se está bem morto''. Esta frase, criada por Shakespeare no século XV, pode perfeitamente ilustrar nossa atual realidade.

Integramos uma sociedade que apresenta entre suas principais características um constante e intenso fluxo de revoluções. Embora devamos reconhecer e desfrutar dos possíveis progressos resultantes, não podemos ignorar algumas sombras que remanescem do passado e alguns paradigmas que permanecem enraizados.

Historicamente falando, a inserção da mulher no mercado de trabalho é um acontecimento muito recente e representa sim uma grande conquista. Esta conquista, porém, carrega consigo certa herança que se manifesta numa pressão interna por parte da mulher, que procura se destacar e adquirir cargos cada vez mais elevados para assim desmistificar a crença na inferioridade feminina que por tantos anos prevaleceu.

Atualmente, muitas são as funções ocupadas pela mulher. E elas vêm acompanhadas de uma imensa lista de cobranças.

Exercemos papeis das mais diversas ordens e que de nós exigem performances incríveis. Somos profissionais, filhas (ah, como ser filha exige de nós, principalmente quando nossos pais já não conseguem ter a autonomia de outrora), administradoras do lar, parceiras afetivas; muitas de nós somos mães, e bem sabemos o quanto esta função, por mais deliciosa que seja, também demanda de nós. Enfim, poderíamos enumerar ainda muitos outros papeis ocupados por nós mulheres, e junto com eles, deleites e exigências.

Convido agora as leitoras a uma reflexão: será que tais cobranças externas são maiores do que as que fazemos a nós mesmas? Por mais exigidas que sejamos, percebo um sofrimento muito maior decorrente das cobranças que nos fazemos, críticas exageradas, busca ilusória da perfeição, que nada mais são do que o desejo de aprovação, ou seja, de sermos amadas.

Sabemos por meio do pai da Psicanálise - Sigmund Freud - que uma das instâncias de nosso psiquismo é formada pelo Superego, que tem de fato a função da auto-observação e da censura. O Superego é o depositário da consciência moral, tornando-se o portador do "ideal do Ego", com o qual o Ego se compara, no qual se inspira, e do qual se esforça por atender reivindicações de um aperfeiçoamento de si.

Felizmente, temos as condições para fazer com que nosso Superego não nos esmague, para que possamos desempenhar todos os papeis que escolhemos (ou não), com mais bem-estar e conforto. A ideia é que possamos perceber que não precisamos arrastar correntes, não precisamos agir conosco de forma a nos martirizarmos, nos punirmos por não sermos perfeitas. Aliás, aqui vai uma verdade simples que sempre vale a pena ser lembrada: a perfeição só existe em nosso imaginário!

A psicanálise é uma ferramenta que auxilia neste percurso, fortalecendo nosso Ego e favorecendo maior equilíbrio entre as exigências externas e os nossos desejos mais íntimos. Assim, podemos nos libertar das amarras que nos colocam neste lugar e nos fazem sofrer, negociando com este Superego autoritário. Precisamos fazer, em primeiro lugar, uma parceria conosco mesmo para que possamos viver sim todos os papeis que conquistamos e gostamos de ocupar, mas com a leveza e a alegria que certamente merecemos.

Dra. Christiane Deneno

Psicanalista; Especialista em Antroposofia na Saúde; Especialista em Psicanálise de Crianças e Adolescentes; Membro da equipe docente do Curso de Pós Graduação-Formação em Psicanálise do Centro de Estudos Psicanalíticos; Coordenadora e membro da rede de atendimento do CEP (www.centropsicanalise.com.br). (Colaboraram nesta coluna: Camila e Diego Perez).