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O lugar da vida que podemos nos dar

As pessoas precisam valorizar suas conquistas diárias e, assim, se tornarem melhores (antes de tudo) para si


 

Há dez anos mudei de endereço, deixei para trás casa, empresa, toda a minha família e amigos conquistados ao longo de uma caminhada de quatro décadas. O final de um casamento. O fechamento de um ciclo.

Na época, eu me lembro de um cliente perguntando: não está bom aqui? E eu respondendo: Está bom, e acredite, é mais difícil mudar do bom para o ótimo do que do ruim para o bom. Quando está ruim parece existir uma força que nos expulsa do poço.

Parti para a viagem que mudaria a minha vida.

O que eu trazia? Esperança. Esperança de uma vida melhor e a certeza do que era verdadeiramente significativo de outros lugares vividos, estaria comigo para sempre.

Ao chegar aqui, conheci a Dione entre tantas pessoas queridas, ela me abraçou, me acolheu, amenizando as dúvidas, dores e os medos. E olha só, no ano passado ela me presenteou com o livro: “A vida que ninguém vê”, de Eliane Brum, uma cronista que relata os acontecimentos de pessoas que não viram notícias, não são celebridades. Os textos revelam o extraordinário de tantas vidas comuns, cotidianas, conhecidas por todos nós. O que mais me chamou a atenção desse livro, foi o olhar da Eliane, de conseguir dar um lugar para as pessoas que na vida prática são excluídos e massacrados pela dura realidade na qual vivem. Ela se recusa a vê-los como vítimas.

Esse é em parte muito do nosso trabalho de desenvolvimento, de ajudar a pessoa a se enxergar como protagonista, avaliar o seu campo de possibilidades e encorajá-la a ter energia, entusiasmo e estratégias para se construir uma pessoa e vida melhores.

É sabido que a maioria das pessoas, diante de uma situação de fracasso costuma terceirizar a responsabilidade dos resultados obtidos. Apesar de uma minoria, algumas pessoas, fazem uma avalição realista da situação, identificam os fatores externos que influenciaram e principalmente fazem uma análise minuciosa e humilde de como suas atitudes, comportamentos e escolhas contribuíram com tal resultado.

Quando li os textos da Eliane fiquei muito tocada. A ideia de que pessoas com uma vida difícil conseguiriam conquistar um lugar que dessem dignidade a elas, fez com que eu reforçasse o senso de responsabilidade de fazer o melhor por mim, numa luta incansável e suave, sem peso, apenas com o entendimento de construção, evolução e aprendizagem, e a clareza do quanto o meu trabalho pode enriquecer a vida das pessoas.

A nossa mente tende a julgar os acontecimentos como bons ou ruins, mas na realidade eles apenas são. Em cada um deles podemos nos beneficiar quando lidamos com mais objetividade, entendendo a oportunidade para usufruir ou aprender.

No papel de coach tenho a oportunidade de caminhar lado a lado de pessoas e assistir mudanças, compartilhar um pouco da vida, sofrimento e esperança de muita gente. Os processos de transformações mais profundos e reveladores são aqueles que a pessoa assume a postura de protagonista, mergulha no seu autoconhecimento, tem a humildade de reconhecer suas dificuldades, deseja a mudança, esperança por algo melhor e tem disciplina para colocar em prática as ações necessária.

Quando olho para essa construção e a parceria com o outro para promover crescimento penso que encontrei o meu lugar na vida e isso me faz sentir plena.

Quando compartilho essa experiência com pessoas que têm essa mesma sensação percebo algo em comum, a capacidade de valorizar suas próprias conquistas internas e externas e uma ruptura com os modelos estereotipados de felicidade atrelados ao sucesso, riqueza e beleza.

São histórias de pessoas reais.

Mari Martins

Empresária, diretora da Duomo Educação Corporativa, executive coach, mãe da Olívia (8 anos), casada