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O que é reconstrução mamária?

Após a retirada da mama, muitas são as perguntas que permeiam a mente das mulheres


 

Como é possível criar uma nova mama do nada? Ela será igual a anterior? A reconstrução pode atrapalhar o tratamento da minha doença?

Essas são algumas das questões frequentes quando começamos a conversa sobre reconstrução com a paciente que será submetida à cirurgia para o câncer de mama. Então vamos respondê-las.

O nome reconstrução de mama é utilizado de maneira incorreta, na realidade não é possível reconstruir efetivamente uma mama. Digo isso porque não existe em nosso organismo nenhum outro local onde seja possível buscar tecido glandular mamário, com ductos e papilas, com capacidade de produção de láctea entre outras funções.

Então, o que efetivamente fazemos é uma “imitação” da mama original, muito semelhante na aparência e no formato, mas diferente na função. Em geral a consistência é mais endurecida porque utilizamos como base para as reconstruções próteses e/ou músculos, dependendo de cada caso. A sensibilidade é extremamente reduzida, principalmente na área central e o novo mamilo não possuirá capacidade de ereção, ou resposta aos estímulos externos. Também, não existirá produção láctea ou de qualquer outra secreção glandular.

Apesar disso, muitas mulheres que se submetem a reconstrução de mama levam uma vida relativamente normal, sem restrições ao uso de roupas, biquínis ou relações sexuais. O nível de semelhança dependerá muito do estágio em que a doença for descoberta. Nos casos em que a paciente é diagnosticada precocemente, existe a possibilidade de preservação da pele, do mamilo e até de algum tecido mamário. Quanto menor for a ressecção melhor será o resultado da reconstrução. Existem casos em que é praticamente imperceptível, mas para isso é fundamental que a doença seja descoberta logo no início. Quando tratamos do tamanho e formato é possível chegarmos bem próximos da realidade.

Pode acontecer de o processo de reconstrução retardar o início do tratamento complementar da doença e é importante que a paciente esteja ciente disso antes de tomar a sua decisão. Isso pode ocorrer nos casos de reconstrução imediata (a mama é ressecada e reconstruída na mesma cirurgia), por se tratar de uma cirurgia mais longa, complexa e mais suscetível a complicações pós-operatórias. Nessa situação, caso a paciente necessite ser submetida à radioterapia ou a quimioterapia complementar, será necessário aguardarmos a resolução da complicação para então darmos início ao tratamento.

A cirurgia plástica evoluiu muito quando falamos de reconstrução mamária, mas ainda não significa literalmente devolvermos uma mama. O que fazemos é uma bela cópia do original! Isso precisa ficar claro para a paciente e o acompanhamento psicológico é fundamental nesse processo. É fundamental garantirmos que as expectativas estejam dentro das possibilidades reais da medicina atual.

Escolhendo o momento de reconstruir a mama

Existem duas opções principais para o momento da reconstrução da mama, no mesmo momento da ressecção ou após o termino de todo o tratamento.

A palavra escolha só pode ser utilizada para uma parcela das mulheres com câncer de mama, digo isso porque em alguns casos onde a doença já se encontra avançada, a reconstrução no mesmo tempo esta contraindicada formalmente. E para as que podem escolher, quais são os prós e contras das duas opções? Let´s go!

A reconstrução imediata, a princípio, parece o melhor dos mundos. No imaginário da paciente pode parecer que ela entrará com uma mama com câncer e sairá com uma mama igual e sem o câncer, mas não é bem assim que as coisas funcionam.

A primeira coisa que precisa ficar esclarecida para a paciente é que só no momento da cirurgia será possível determinar com exatidão o tipo de reconstrução que será realizada. Em alguns casos o tumor se apresenta diferente do que os exames pré-operatórios indicavam, e a programação precisa ser alterada. Um paciente que inicialmente era candidato a reconstrução imediata, pode deixar de ser.

Considerando que a reconstrução imediata seja possível realmente, é importante lembrar que em geral essa será a primeira etapa da sua reconstrução que, sem dúvida, será composta de mais etapas e que em geral serão no mínimo três procedimentos para que a sensação de mama volte a existir.

Também, é importante entender que a reconstrução imediata é uma cirurgia muito mais complexa que apenas a mastectomia e por isso susceptível a um maior número de complicações pós-operatórias. No caso de alguma complicação, o tratamento desta deverá ser concluído para que seja possível realizar algum tratamento complementar do câncer como radioterapia e quimioterapia.

Então a reconstrução imediata é ruim? Claro que não! É ótima quando bem indicada! A mulher será submetida a menos um procedimento cirúrgico e anestésico, quando a ressecção é poupadora da pele torna possível que nós, cirurgiões plásticos, coloquemos uma próteses já no primeiro momento, o que torna a vida da paciente muito mais agradável, uma vez que ela poderá colocar roupas e sutiãs sem grande constrangimento!

O fundamental em todo esse processo é a paciente ter o cirurgião plástico disponível na sua mastectomia (pois se for possível ele já começará seu processo de reconstrução), estar ciente que a decisão definitiva da reconstrução só poderá ser tomada durante a cirurgia, discutir todas as opções possíveis de reconstrução, e entender que naquele momento todos os médicos que ela escolheu estão focados em curá-la do câncer, esse é o nosso maior objetivo, e que após esse objetivo ter sido alcançado, todos os esforços serão empreendidos em resgatá-la como mulher.

Brunna Salvarezza

Graduada em medicina pela UFRJ, fez residência em Cirurgia Geral no Hospital dos Servidores do Estado, Pós-Graduação pela UGF em Medicina e Cirurgia Estética e Residência em Cirurgia Plástica no Hospital dos Servidores do Estado. Ela, também foi convidada pela direção do Hospital dos Servidores do Estado para ser professora na formação dos residentes de cirurgia plástica da instituição.