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O que elas querem ser quando crescerem

Desafios da vida contemporânea


Quem disse que meninas precisam ser princesas, gostar de coisas fofas e objetos cor de rosa? Por que, ao invés de brincar de casinha ou de boneca nossas pequenas não vão para o quintal construir algo bacana, como uma máquina de Rube Goldberg? Essas são algumas das dúvidas levantadas pelo comercial da GoldieBlox, start-up de brinquedos infantis que vende jogos e livros para encorajar garotas a se tornarem engenheiras.

O vídeo, lançado no final do ano passado, mostra três garotinhas morrendo de tédio diante da TV assistindo a um programa que supostamente mostra coisas que elas gostam. Até elas se encherem, pegarem um cinto de ferramentas, capacetes e óculos de proteção e usam todos os brinquedinhos fofinhos para montar uma traquitana incrível. Link para o vídeo: http://tempuri.org/tempuri.html

A letra da canção que compõe a trilha sonora do comercial diz que as garotas querem usar seus cérebros para criar aplicativos para celulares e construir naves espaciais e crescer sabendo que elas podem escolher qualquer tipo de profissão e não apenas as tradicionalmente "reservadas" para elas. Bacana, né?

Impossível negar que avançamos muito no sentido de reduzir o sexismo no mercado de trabalho. No entanto, infelizmente, ainda estamos longe do mundo ideal, em que ambos os gêneros coexistem de forma equilibrada em todas as carreiras. Engana-se quem pensa que o único responsável pela construção desse cenário vergonhoso seja o preconceito velado ou declarado que impede que homens e mulheres assumam posições nas empresas de forma proporcional. A culpa, no fim do dia, também é nossa.

Como assim? Me perguntam alguns de vocês. Simples. Criando crianças que acreditam existir atividades femininas e atividades masculinas. Isso mesmo, cada um de nós coloca um tijolinho na muralha que separa homens e mulheres no mercado de trabalho quando dizemos para os nossos pequenos que meninas são princesas e meninos são guerreiros. Quando damos panelinhas para elas e blocos de montar para eles. Quando incentivamos os garotos a explorar o mundo e insistimos que as garotas devem ficar em casa.

Pode parecer bobagem, neurose ou exagero de uma pessoa que nada entende de educação infantil. Mas não é. Crianças são como esponjas absorvendo tudo o que existe a redor delas. É observando e repetindo que elas aprendem. É também por meio desses exemplos que elas constroem sua visão de mundo e seus valores. Imaginem passar a vida toda ouvindo que você precisa ser delicada. Ganhar presentes que incentivem você a cuidar da casa e de bebês. Receber elogios pelo desenvolvimento de seu lado artístico e emotivo. O que vocês acham que esse criança vai querer ser quando crescer: princesa ou astronauta?

Não estou dizendo que crianças são bonecos de argila moldados ao bel prazer dos adultos que as rodeiam. Obviamente elas têm talentos e inclinações que influenciam diretamente na escolha da profissão. O ponto é a forma como os adultos lidam com esses talentos e essas inclinações, incentivando e desenvolvendo apenas aqueles considerados adequados para um determinado gênero. O resultado disso são ideias como "homem que dança é gay", "mulheres não sabem lidar com números", "homens têm mais facilidade para executar tarefas que envolvam lógica" e "mulheres são frágeis e como tal não estão aptas a realizar atividades mais 'brutas'". Besteira, né?

Não nego que existam pesquisas apontando que certas características comportamentais estariam ligadas aos cromossomos ligados à definição de gênero do feto. No entanto, é perigosíssimo acreditarmos que nossa forma de agir é 100% decorrente da combinação de cromossomos X e Y. O potencial do cérebro humano é praticamente inesgotável, mas para se desenvolver é preciso que ele seja estimulado. É aí que entra o papel dos adultos e é aí que a maioria deles costuma falhar. Não por maldade ou preconceito. Mas por pura falta de atenção. Afinal, quem questionaria o fato de que nossas meninas nasceram para ser princesas (ou mães, professoras e mais um monte de papeis que utilize esse lado maternal que as mulheres possuem) e nossos garotões estão destinados a serem TODAS AS OUTRAS COISAS? Colocado assim soa estranho, injusto e pouco equilibrado, não? Pois é.

Como ficar só reclamando não leva ninguém a lugar nenhum, proponho uma lição de casa: vamos mudar a lógica na hora de comprar presentes para uma criança, procurando nas prateleiras reservadas às meninas se o pequeno for garoto e na parte reservada a eles se o brinquedo for para uma garota. O objetivo da troca não é chocar os pais, ou forçar a barra. Só inverter uma ordem que exclui e separa crianças e que, no futuro, vai alargar o abismo que separa homens e mulheres no mercado de trabalho.

Se cada um de nós conseguir mostrar a uma única criança que ela pode ser o que quiser já teremos feito a nossa parte para a construção de um futuro cheio de mulheres astronautas, engenheiras, presidentes, e homens à vontade com o fato de serem dançarinos, enfermeiros e cuidadores. 

Arthur Chioramital

Jornalista, com vivência internacional, em Londres, colunista do Portal Mulher Executiva e do Yahoo! Mulher.