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Pais que amam dizem não

A função paterna é fundamental para organizar, estruturar e trazer a segurança necessária para a criança se desenvolver de forma saudável


Percebemos um aumento significativo, nos últimos anos, de casos das chamadas patologias do narcisismo, transtornos de conduta e transtornos depressivos. Patologias tais causadas principalmente pelo desamparo e pela ausência de um ego solidamente constituído. Os conflitos atuais estão muito mais ligados à perda do sentido da vida, à crise de identidade e não tanto às questões de ordem sexual, como na época de Freud.

Perguntamos-nos então: o que está acontecendo com o psiquismo humano?

Jacques Lacan, grande psicanalista francês, nos traz importantíssima contribuição quando ressalta a importância da função paterna exercida na vida das crianças. O pai ou quem quer que assuma tal função, faz a ponte entre o mundo interno oferecido pela mãe e a realidade externa da criança, possibilitando a inserção e interação da mesma na civilização, na cultura. É a partir da entrada (necessária) de um terceiro elemento na relação mãe-bebê, que a criança aprende a viver em grupo, em sociedade, a se relacionar com outras pessoas. Vejam que estamos falando de função paterna, e não necessariamente de um pai biológico. 

Tal função pode ser exercida por qualquer outra pessoa, como avó (o), tio (a), padrasto, ou até mesmo a própria mãe, o que acontece em muitas situações. Tal competência atua também, instaurando o limite, a lei, implantando a ordem, frustrando quando necessário, de modo que a criança saiba que não pode tudo, que é preciso respeitar a uma "lei maior", oferecendo algo que a impeça de fazer o que quer e quando quer. Por mais que a criança pareça momentaneamente não gostar destes limites, tal situação é fundamental para organizar, estruturar e trazer a segurança necessária que a mesma precisa sentir para se desenvolver de forma saudável. Pais que amam dizem "não" com autoridade moral, porém sem violência. Afinal, a família deve exercer papel de proteção que dá a sustentação psíquica ao sujeito.

Sabemos que as transformações ocorridas na cultura contemporânea causam influência direta na constituição da subjetividade humana. O enfraquecimento da função paterna no laço social e familiar pode dificultar o acesso da criança ao mundo simbólico, que representa a subjetividade, e também a possibilidade dela aprender a lidar com as frustrações inevitáveis que a vida oferece.  É importante ressaltar algo muitas vezes ignorado: mesmo que exista a presença de um pai (ou alguém que tente exercer tal função) na vida da criança, se os limites dados por este não forem respeitados pela mãe ou por quem ocupa a função materna (desde que coerentes  e sem violência , claro!) ele não terá êxito, pois estará desautorizado e de nada adiantará sua presença. 

Já dizia o filósofo Aristóteles: "Da mesma maneira que a criança deve viver de acordo com as ordens do seu mestre, nossa faculdade de desejar deve se conformar às prescrições da razão".

Segundo Lacan, é concebível que o pai esteja presente mesmo quando não está, ou, inversamente, que não esteja presente mesmo quando parece estar.  E que se a criança não passar pela mediação da função paterna, ficará exposta a capturas fantasmáticas das mais diversas. Todos nós temos a consciência da importância da função materna na vida da criança, inclusive para a estruturação de sua personalidade. Porém, a função paterna também é imprescindível, mesmo que exercida por outrem. Ambas as funções, portanto, são fundamentais e complementares. 

Aprendamos  portanto, a exercer a função paterna ou a não impedir que alguém o faça, para que nossas crianças não venham a ser pessoas que busquem satisfação apenas no prazer imediato e que não aceitam se submeter às normas e limites necessários para uma convivência em sociedade, gerando desta forma possíveis transtornos psíquicos.


Dra. Christiane Deneno

Psicanalista; Especialista em Antroposofia na Saúde; Especialista em Psicanálise de Crianças e Adolescentes; Membro da equipe docente do Curso de Pós Graduação-Formação em Psicanálise do Centro de Estudos Psicanalíticos; Coordenadora e membro da rede de atendimento do CEP (www.centropsicanalise.com.br). (Colaboraram nesta coluna: Camila e Diego Perez).