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Pelo direito de sentir

Harmonia entre pensamentos, sentimentos e ações garantem vida saudável e equilibrada


Um fato interessante e que noto com frequência em meu consultório é que ao questionar aos pacientes como se sentem em relação a determinados fatos e acontecimentos, estes muitas vezes se mostram desconcertados e com dificuldade em encontrar a resposta, acostumados que estão em passar por cima de suas emoções, até mesmo e principalmente por não identifica-las. 

Frequentemente dizem o que "pensam" ou como "agem", ignorando o que "sentem", como se este verbo estivesse sendo falado em língua estrangeira. Percebo como é difícil ao sujeito conectar-se com seus próprios sentimentos e emoções o que, ainda bem, se modifica ao logo de sua análise.

De acordo com Rudolf Steiner, filósofo e criador da Antroposofia, deve-se manter uma harmonia entre o pensar, o agir e o sentir, para se viver de forma saudável e equilibrada. Inseridos, porém, numa sociedade acelerada e marcada por imposições, somos condicionados a viver de modo frenético, deixando de lado as nossas emoções, o que por sinal desde muito cedo somos ensinados a reprimir, causando desequilíbrios que geram transtornos de ordem física e emocional, dentre os quais a depressão.

No Ocidente, houve um expressivo aumento de diagnósticos de depressão desde a década de 1970. Uma questão que está intimamente relacionada, entre outros fatores, aos interesses da indústria farmacêutica, que lucra com diagnósticos que enquadram uma parcela cada vez maior da população. Isso porque muitos comportamentos e sentimentos inerentemente humanos são hoje considerados patológicos e induzidos à medicação. É importante assim, diferenciar a depressão de "ocorrências depressivas" casuais, causadas por perdas, fracassos e lutos. Todos temos sim o direito de sentirmo-nos tristes, desejarmos nos recolher temporariamente para elaborarmos a situação que nos abalou e então nos refazermos. Isso é humano e legítimo. O que confunde é que também na depressão estes sentimentos e sensações estão presentes, porém, nesta situação em que o sujeito adoeceu, sua vida perde o sentido.

No mundo contemporâneo, estes estados depressivos - esporádicos ou não - são mal vistos. Desde pequenos ouvimos "uma criança tão linda chorando? Que feio...", o que reforça a nossa crença de que não podemos "sentir", tampouco expressar as nossas emoções. Esta ideia de inadequação aumenta o sofrimento dos depressivos (ou dos sujeitos que simplesmente estão tristes naquele momento), pois se sentem culpados por não estarem de acordo com os ideais de euforia e excitação tão estimulados socialmente. Esta passa a ser então uma consequência penosa a essas pessoas, que têm a sensação de estarem na contramão, de estarem desajustadas em relação à velocidade, aos moldes do mundo atual e as suas expectativas. "Sorria, você está sendo filmado!" Este é o recado que recebemos.

Desta forma, não há como desconsiderar que existe uma cultura influenciando vivências, gerando conflitos e sintomas muitas vezes vistos como simplesmente individuais. Assim, podemos pensar na depressão como uma forma de resistência, de refúgio, a um modelo imposto às vivências mais cotidianas, um modelo que solicita a todo tempo a aceleração, o exibicionismo e a euforia. Consequentemente, a negação dos próprios sentimentos.

De qualquer modo, o sujeito que está com tal adoecimento psíquico sofre muito, seja por não se enquadrar nos moldes esperados socialmente, seja por não enxergar sentido em continuar vivendo. O uso de antidepressivos muitas vezes atenua esta dor e é indicado em alguns casos, mas por um tempo determinado. É interessante, portanto, associada à medicação ou não (dependendo do caso), criar sentidos que contraponham o vazio ao qual o sujeito é acometido. Todo ser humano precisa sentir que faz diferença, seja com o seu trabalho, seja cuidando de um animal de estimação, seja em relações interpessoais, seja da forma que for. A psicanálise é um importante instrumento nesta construção, uma vez que problematiza a posição ocupada pelo sujeito, possibilitando a transformação do antigo jeito de funcionar, fonte de dor e sofrimento, em uma nova forma de se posicionar diante da vida, para que se encontre um sentido compatível com suas emoções e sentimentos, trazendo assim, mais prazer e alegria.

Precisamos antes de qualquer coisa, aprender a conhecer, identificar e legitimar as nossas emoções, fazendo com que sejam fonte de saúde e não de doença.

Dra. Christiane Deneno

Psicanalista; Especialista em Antroposofia na Saúde; Especialista em Psicanálise de Crianças e Adolescentes; Membro da equipe docente do Curso de Pós Graduação-Formação em Psicanálise do Centro de Estudos Psicanalíticos; Coordenadora e membro da rede de atendimento do CEP (www.centropsicanalise.com.br). (Colaboraram nesta coluna: Camila e Diego Perez).