Compartilhe

Seis mulheres e uma missão: liderar

Adriana Gribel, Blanca Treviño, Camila Farani, Danyelle Van Straten, Juliana Ferreira e Thaís Bittencourt Barbosa contam suas trajetórias e desafios no mundo corporativo


 

 

Líderes, as mulheres têm menos medo de arriscar se comparadas aos homens. Por isso, a cada ano as empresas deixam o preconceito e o receio de lado para apostar nelas, ainda mais quando o assunto são os cargos executivos.

Estudos mostram que 45% dos donos de pequenos negócios, no mundo, são mulheres. No entanto, as empreendedoras têm mais dificuldades do que os homens para conquistar credibilidade.

A pesquisa “Liderança Feminina no Franchising”, desenvolvido pela  ABF (Associação Brasileira de Franchising), mostra que as redes com menos de cinco anos possuem um percentual de 40% de mulheres em cargos executivos.

Segundo o estudo, a participação feminina cai no total de cargos executivos de acordo com o aumento da idade da companhia. Entre as redes com seis a dez anos, o índice é reduzido para 34%. Já nas franqueadoras com mais de dez anos, o percentual é de 31%.

Diante dos dados, desafios são considerados essenciais para o desenvolvimento profissional das executivas. Em rápidas entrevistas, seis líderes - Adriana Gribel, Blanca Treviño, Camila Farani, Danyelle Van Straten, Juliana Ferreira e Thaís Bittencourt Barbosa - contam suas trajetórias e desafios no mundo corporativo.

Em comum? Além de estarem em postos de chefia, elas foram inspiradas pelas mães.

“Não adianta pregar algo que não praticamos!"

Para Adriana Gribel, Shopping Center é muito mais do que um lugar para compras. Engenheira Eletricista com MBA em Gestão de Shoppings Centers pela FGV/RJ (Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro), ela é vice-presidente da Tenco Shopping Centers.

“Após a graduação, abri uma empresa de projetos complementares e prestei serviço para várias construtoras de Belo Horizonte e com um sócio (engenheiro civil) construí por administração. Em 2000, me tornei sócia da Tenco e de lá para cá ocupei os cargos de diretora Financeira, de Gestão, de Implantação e finalmente, vice-presidente executiva”, conta a profissional que atuou em companhias, como: Nuclebrás, Petrobrás e Demetrô.

Inspirada na mãe, a mineira de Belo Horizonte é montanhista desde 1994 e ao lado do esposo Eduardo Gribel, usa o esporte para superar desafios e no modelo de gestão que emprega em sua holding.

Mãe de quatro filhos e avó dos pequenos Cadu e Bella, Adriana Gribel diz acreditar que “as mulheres em cargos de liderança sofrem uma desconfiança quanto à sua capacidade profissional, quando comparada aos homens. Mas, como temos uma forte intuição, usamos isso a nosso favor e sabemos antes do que eles com quem lidamos. Temos forte percepção dos nossos recursos humanos e sobre o que podemos delegar a cada um”, destaca a mulher que há 30 anos, na faculdade de Engenharia Elétrica, era uma das poucas mulheres na turma.

Segundo ela, o mercado de trabalho brasileiro ainda é “cruel” com as mães. “Não existe o entendimento de que um bebê é do casal e não da mãe. Alguns chefes não contratam mulheres para determinados cargos, por causa de uma possível gravidez. Isso é discriminação. Os líderes não agem assim”, frisa. 

Dica de Sucesso: "Ser verdadeiro em todas as atitudes e alinhar as palavras com as ações, além de trabalhar em algo em que você acredita. Não adianta pregar algo que não praticamos!".

“Não permita que o medo dite seus limites”

Blanca Treviño é presidente e CEO Geral da Softtek, empresa especializada em serviços de TI (Tecnologia da Informação) na América Latina. Em mais de 25 anos, a executiva conquistou reconhecimento internacional como impulsionadora da indústria de serviços de TI em países emergentes, razão pela qual tem colaborado com diferentes governos na definição de estratégias propensas a incrementar a participação da América Latina no segmento.

Nascida em Monterrey, no México, Blanca, que cursou Ciências da Computação no Instituto Tecnológico de Estudos Superiores de sua cidade natal, tem os pais, em especial, a mãe como o seu principal exemplo. “Minha mãe criou seis filhos. Quando sentiu que tinha cumprido essa missão, quis estudar e se matriculou no curso de Psicologia. Nessa época, eu já estava com 15 anos e prestes a entrar na universidade. Ao longo do curso, ela engravidou de seu sétimo filho, então nós concluímos o curso quase ao mesmo tempo. Minha mãe provou que era capaz de estudar, trabalhar e ter sete filhos”, conta.

O pai, um dos primeiros profissionais independentes de sucesso no México, a ensinou a não ter medo de seguir por caminhos pouco explorados. “Foi isso que fiz quando escolhi a computação”, enfatiza.

A barreira cultural foi o maior desafio da executiva, que é taxativa ao dizer que existe preconceito em relação à liderança feminina. “Muitas pessoas pensam que o papel das mulheres é dentro de casa e que elas são incapazes de fechar um negócio. Tive a sorte de ter minha mãe como um exemplo e ter um ambiente familiar que me ofereceu suporte e me convidou a fazer coisas novas. Tive a sorte de ter um sistema de apoio com irmãos, tias e meus pais, que me ajudaram em todos os momentos”, ressalta.

Blanca reconhece os avanços em relação à questão de gêneros, mas afirma que: “No entanto, os desafios no ambiente de negócios continuam existindo para as mulheres. É difícil mudar o estereótipo. Na indústria de TI, não se associa engenheiro com uma mulher. Mas, já vemos que cada vez mais papéis de liderança são ocupados por mulheres. Você pode ver isso em empresas como IBM, Yahoo ou Facebook, com Sheryl Sandberg”, pontua.

Dica de Sucesso: “Não permita que o medo dite seus limites. Todos nós temos desafios e devemos abraçar os tempos difíceis, aproveitando para aprender a vencer em tempos de oportunidade”.

“Aparecerão mil motivos para desistir, mas a resiliência é uma característica comum às mulheres”

Empreendedora desde os 16 anos, Camila Farani iniciou sua trajetória profissional ao propor à mãe, quando administrava a loja Tabaco Café, no centro do Rio de Janeiro (RJ), a incorporação do café gelado ao cardápio, no inverno de 1996.

A novidade deu certo e o faturamento do estabelecimento aumentou 30% no período e, com esse resultado, conquistou participação societária no estabelecimento. “Minha mãe foi empreendedora por necessidade, meu pai faleceu quando eu tinha quatro anos. Então, esse comportamento empreendedor sempre esteve presente na minha vida”, garante.

Formada em Direito, pela PUC/RJ (Pontifícia Universidade Católica), aos 34 anos, ela é diretora do Grupo Boxx, holding que administra a cafeteria e restaurantes de alimentação saudável, desde 2012 ela é cofundadora e diretora da Lab22, "mini fundo seed" concentrado em auxiliar a criação e gestão de empresas nascentes de tecnologia.

“As mulheres ainda são minorias no mercado de trabalho mesmo sendo a maioria nas universidades. A mulher tem uma visão mais detalhista, o homem mais macro. Eu acredito numa equipe com espaço para todos, homens e mulheres, pois ambos são complementares”, destaca a jovem, cujas inspirações profissionais são Angela Hirata, Jorge Paulo Lehman e Ana Luiza Trajano.

Para Camila Farani, os principais desafios de uma líder são: “combinar com equilíbrio a vida pessoal e profissional. O auge da carreira coincide com o período em que, normalmente, a mulher se casa, tem filhos e muitas obrigações. Infelizmente, muitas negam cargos maiores por não conseguir conciliar tudo”, explana.

Dica de Sucesso: “O caminho que irá trilhar será diferente e mais longo do que você possa imaginar. Aparecerão mil motivos para desistir, mas a resiliência é uma característica comum às mulheres e até um diferencial. Então, sugiro  que o foco seja mantido em meio as dificuldades para que seja possível alcançar os objetivos traçados”.

“Não é uma competição, é uma construção”

Danyelle Van Straten, administradora e especialista em gestão de rede de franchising, há 19 anos é sócia-diretora da Depyl Action. Hoje, ela comanda a rede de franquias especializada em depilação, que conta com 92 lojas no Brasil e duas unidades na Venezuela.

“Praticamente nasci dentro de um ambiente empreendedor. Minha mãe tinha uma pequena fábrica de cera depilatória e percebia a aflição das mulheres na hora da depilação. Com objetivo de mudar essa realidade, nasceu a Depyl Action. Assim, ao lado da minha mãe, preparava a cera, embalava e participava de quase todas as etapas. Participei de todo processo de formatação e implantação da franquia, desde a primeira loja”, conta ela, que em 2014 assumiu a direção, ABF/MG (Associação Brasileira de Franchising).

Divorciada e mãe de Daniel (04) e André (10), a executiva segue os passos de sua genitora.  “Minha inspiração sempre foi ela, minha mãe. Mulher guerreira que construiu tudo isso na cara e com coragem e conseguiu criar três filhos com muito amor”, relata.

Danyelle teve a idade como um de seus obstáculos. “Como comecei nova, tive que provar com  competência que estava ali por mérito e não por ser filha da dona. Tive que liderar pessoas mais velhas, homens e mulheres e isso me desafiou a ser melhor a cada dia”, diz.

Para garantir o sucesso profissional, ela recomenda que as mulheres invistam em capacitação, na autoconfiança e esqueçam o mito de ser “super”. “Acho que dar conta de tudo é um mito que supõe o inatingível equilíbrio entre trabalho e vida pessoal. Mulheres não precisam dar conta de tudo, é impossível! É importante perceber isso, não sofrer e escolher o que você quer para sua vida. Se você quer ocupar um cargo de liderança, terá que abrir mão de outras coisas, simples assim. Mas tudo com equilíbrio!”, finaliza.

Dica de Sucesso: “Minha esperança é que cada mulher saiba escolher sem culpa seu caminho e siga com entusiasmo. E que cada homem faça sua parte apoiando suas mulheres no trabalho e no lar, também com entusiasmo. Não é uma competição, é uma construção”.

“Acredito que os segredos, para homens e mulheres, serem bons líderes são: realizar suas tarefas com excelência e demonstrar em sua rotina respeito por toda a sua equipe”

Há pouco tempo, uma pesquisa da Harvey Nash, realizada com 3.691 executivos em mais de 30 países, revelou que as mulheres representam apenas 8% dos gestores de TI (Tecnologia da Informação), em 2015. Entre as mulheres que integram o meio, está Juliana Ferreira sócia-diretora executiva da A2F.

Duplamente diplomada em engenharia elétrica pela Unicamp e INSA Lyon (Institut National des Sciences Appliquées de Lyon), além de um curso de extensão na FGV (Fundação Getúlio Vargas), ela tem apenas 32 anos.

Casada e sem filhos, Juliana Ferreira, ao longo de 12 anos construiu uma carreira na área comercial, onde conquistou prêmios de “over achievement” em empresas como EMC e Oracle. “Minha principal inspiração foi a minha mãe, uma mulher forte e empreendedora. Ela me ensinou a ter seriedade e certeza nas minhas ações, assim como ter jogo de cintura para lidar com as reações das pessoas, a ser firme, mas sem deixar de ser carinhosa com todos. Ela é meu modelo de mulher bem-sucedida e feliz”, discorre.

Única mulher da turma durante a graduação, ela sempre teve flexibilidade para lidar com situações em que seu conhecimento era subjugado pelo fato de ser mulher e jovem. “Nessas situações o que importa é ser segura e passar todo o seu conhecimento com tranquilidade. É assim que se conquista respeito no mercado, independente de ser mulher ou homem”, categoriza. 

Sobre os desafios encontrados pelas executivas, Juliana cita que treinamentos e experiência são fundamentais para que elas “passem a enfrentar essas situações (desafios na liderança) com naturalidade e profissionalismo”, conclui.

Dica de Sucesso: “Acredito que os segredos, para homens e mulheres, serem bons líderes são: realizar suas tarefas com excelência e demonstrar em sua rotina respeito por toda a sua equipe”.

“É necessário compreender a feminilidade como uma vantagem para o mercado de trabalho atual e futuro”

Thaís Bittencourt Barbosa, diretora comercial do Grupo Equipamed é formada em Designer de produto com especialização em Gestão em Marketing, Administração e Gestão Comercial. Para ocupar o atual cargo, ela percorreu todo o caminho imposto pela ascensão. “Entrei como estagiária de Marketing do Grupo Equipamed. Depois, passei a ser gerente de Vendas da linha de produtos para Aleitamento Materno; fui convidada para assumir a posição de gerente de Vendas Nacional de todas as linhas de produtos da empresa e, em 2013, comecei a atuar como diretora Comercial”, conta.

Entender mais sobre a empresa da família desafiou a profissional. “Deparar-me com uma estrutura muito maior do que eu tinha em mente e mostrar para mim mesma, e para os outros, que eu seria capaz de olhar para tudo com habilidade, foi um dos maiores desafios”, frisa ela, que aos poucos, com competência, mostrou que ser mulher, jovem e assumir um negócio familiar não impediriam o desenvolvimento da empresa.

Ao falar sobre as discrepâncias entre os sexos feminino e masculino no mercado de trabalho, a executiva diz ter “a impressão de que a mulher precisa sempre provar o seu valor e talvez trabalhar na 'defensiva', o que pode gerar um desgaste ao ambiente de trabalho”, encerra.

Dica de Sucesso: “Podemos ousar e nos permitir mais. É necessário compreender a feminilidade como uma vantagem para o mercado de trabalho atual e futuro. Com isso em mente, conseguimos vencer qualquer obstáculo. Ser firme, assertiva e ambiciosa aprendemos na prática”.

Por Carla Caroline